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domingo, 12 de julho de 2020

1984: Winston Smith e o encontro com o passado, a descoberta do belo e a presença do sagrado Parte I




Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força



- Lema do Partido do Grande Irmão




O romance 1984 de George Orwell ocorre num mundo onde a revolução comunista venceu e se instalou. Ele se divide em apenas três regiões que volta e meia entram em guerra entre si, volta e meia unem-se, duas a duas, e permuta-se de aliados em outros tantos momentos. Nosso protagonista, Winston Smith, vive na região da Oceânia, onde impera o partido único do terrível Grande Irmão, figura que faz menção a Stálin. 


Winston trabalha no Ministério da Verdade, onde é responsável por alterar notícias do passado para se adequarem aos interesses dinâmicos do Grande Irmão. Na verdade, existe todo um prédio com inúmeros funcionários que trabalham diariamente com esse fim. O controle do passado é de suma importância para o Partido, pois quem o possui controla toda a História - passado, presente e futuro. 

O mundo que Winston vive é tal que ninguém mais consegue ter certeza de qualquer fato sequer, a única certeza possível é aquilo que é dito pelo Grande Irmão. A cada instante, notícias novas surgem para substituir as antigas. O passado é tão dinâmico quanto o presente e isso representa um grande problema, pois um povo sem passado é um povo órfão. Não existe mais nenhuma tradição, nenhuma história, nenhum vínculo com a ancestralidade: tudo o que existe agora é o Partido; vive-se para o Partido.

Entretanto, em determinado momento do romance, surge em Winston um certo desconforto em relação a isso. Ele começa a querer saber como era o mundo pré-revolução, se era melhor ou pior que o atual. Afinal de contas, tinha aprendido que antes da Revolução o mundo era dominado por gente muito má que pertencia a classes superiores e oprimia as classes mais baixas da sociedade. "Os capitalistas eram donos de tudo que havia no mundo e todos os outros homens eram seus escravos. [...]. Haveria menção sobre bispos [...], juízes [...] e a prática de beijar o pé do papa.". Não é preciso ir muito longe para notar que a destruição revolucionária se dirigia aos três pilares da civilização ocidental: o capitalismo, a religião e as instituições de direito.

Em sua busca por descobrir como de fato era o passado, Winston se vê caminhando em direção ao bairro dos proleta ("proletários" em Novafala), na volta pra casa após o expediente. E, depois de muito perseguir sem obter êxito, encontra uma lojinha de antiguidades familiar. Era onde havia comprado seu diário há muito tempo. Ele, enfim, se depara com o conhecido que havia se tornado esquecido.

Ao entrar na lojinha, é atendido por um vendedor aparentemente idoso. Seu nome era sr. Charrington e morava ali também. O interesse de Winston em conhecer mais sobre o passado foi percebido pelo vendedor que iniciou um diálogo com ele.

Logo em seguida, o olhar de Winston fora atraído por um objeto de vidro, "que brilhava suavemente à luz do lampião", que até então nunca vira: um peso de papel semi-hemisférico que continha um coral cor-de-rosa em seu interior. Ficara fascinado; aquilo representava seu encontro com o belo. "É bonito" - afirmou. Ele não estava habituado a esse tipo de arte, nem à experiência estética do belo, afinal, toda arte existente era ideológica: servia ao Grande Irmão, como tudo.

Comprou o objeto, muito mais seduzido por ser uma antiguidade do que por sua beleza, enfiou-o no bolso a fim de escondê-lo porque tudo que era antigo e, no limite, belo, causava suspeitas na Polícia das Ideias. 

Papo vai, papo vem, o sr. Charrington o convida para subir o andar de cima, onde continha uma salinha com mais antiquarias. Era um cômodo que tinha uma lareira, uma poltrona, um relógio de vidro antigo, uma cama grande e dois quadros: um ambiente acolhedor. 

O vendedor mostrou uma das gravuras na parede a Winston. Era uma antiga igreja, São Clemente dos Dinamarqueses, que atualmente estava em ruínas devido a um bombardeio. Prosseguindo, sr. Charrington tenta se lembrar de uma antiga quadrinha popular que era cantada e dançada, tipo aquelas músicas de festas juninas, que reunia os nomes das principais igrejas locais.

A curiosidade de Winston aumentara a tal ponto que ele queria saber onde ficavam as demais igrejas. Era impossível reconhecê-las pela arquitetura, pois tudo fora alterado pelo Partido. Mas, à medida em que conversavam, a quadrinha não saía de sua mente. Cantarolava internamente a ponto de sentir que ouvia os sinos das igrejas:


Sem casca nem semente, dizem os sinos da
São Clemente,
Esses vinténs são pra mim, cantam os sinos da 
São Martim...


Finalmente, o lema assustador e marcante do Grande Irmão fora substituído pela canção popular, isto é, aquilo que é sagrado fora reestabelecido.

A natureza humana de Winston se fazia presente. Era restituída. Seu contato com o passado, sua experiência do belo e seu conhecimento sobre um tempo em que pessoas cantavam e dançavam alegres, onde não existia um controle terrível sobre o pensamento e sentimentos, fazia surgir nele esperança. Esperança de que o mundo voltasse a ser como era antes, ou, pelo menos, em que a liberdade fosse restaurada. Em outras palavras, um mundo em que não houvesse mais o Grande Irmão.

Entretanto, algo aconteceria com Winston que faria ele desistir de tudo isso.


Continua...








terça-feira, 23 de junho de 2020

A iniciação do Sr. Bolseiro




"Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca nojenta, suja, úmida, cheia de pontas de minhocas e um cheiro de limo, nem tampouco uma toca seca, vazia, arenosa, sem nenhum lugar onde se sentar ou onde comer: era uma toca de hobbit, e isso significa conforto." 

- J. R. R. Tolkien



"O Hobbit", escrito por J. R. R. Tolkien, conta a história de uma criaturinha pequena (menor que um anão) com pés grandes e peludos que adora o conforto, a comida boa, o sossego de uma tarde tranquila com seu charuto espalhando no ar anéis de fumaça e que é chamada para uma grande jornada, onde terá que lutar contra trols, gobelins, wargs e, finalmente, o terrível Smaug, o Dragão. Apesar da aparente simplicidade que o livro carrega, a história de nosso querido Sr. Bilbo Bolseiro nos traz valiosas lições espirituais e descreve um rito iniciático básico de todo aquele que se predispõe a "nascer de novo". 

Como todo Hobbit, Bilbo vive num vilarejo muito bonito, aconchegante e afastado dos perigos do mundo. Leva sua vida tranquilamente sem muitas aventuras até que surge a figura do sábio - ou do mestre -, representado por Gandalf, o Cinzento, e o convoca para uma jornada muito perigosa: recuperar um tesouro perdido que está sendo protegido por um grande mal, Smaug. 

Aqui já vemos elementos importantes de uma estrutura iniciática: a alma que vive em seu mundo fechado em si mesmo (isso é o que representa o Condado), que não possui uma visão da totalidade da Realidade (incluindo seus perigos), vê-se chamada para uma jornada onde terá que abrir mão de tudo aquilo que lhe é caro. Mas essa jornada representa a ascese da alma na busca daquilo que é mais sagrado, sendo representado aqui pelo grande tesouro.

É natural nos mitos iniciáticos essa estrutura, mudando apenas a representação desses elementos. Por exemplo, temos a mesma estrutura nos mitos órficos, quando Orfeu desce ao Hades para resgatar sua amada, ou quando Cristo desce à mansão dos mortos e ressurge ao terceiro dia. Essa eucatástrofe ocorre em quase todo rito de iniciação. 

Entretanto, Bilbo só consegue vencer a inércia inicial e ganhar a motivação necessária para começar a empreitada por que ele é descendente dos Tûk, um ramo de sua linhagem que contém os Hobbits aventureiros. Ora, o que significa esse lado Tûk de Bilbo senão a parte mais elevada de nossa alma, que sempre nos lembra que temos que fazer nossa ascese? 

Mais uma vez, a simbologia disso se encontra nos demais mitos sagrados. No hinduísmo, por exemplo, podemos dizer que o lado Tûk representa o atman - ou o Eu superior. No cristianismo, Jesus nos conta que o Reino de Deus está em nós. Tudo isso para mostrar-nos que a ascensão da alma para o sagrado só é possível porque ela já carrega em si a presença de Deus.

A jornada nos leva a busca desse tesouro precioso mas é preciso derrotar ainda o Dragão, ou seja, o puro mal. Não é preciso ir muito além para perceber que Smaug representa os aspectos mais baixos da alma, e por isso deve ser derrotado.

Ao final de tudo, a eucatástrofe está completa: Bilbo, que mergulhou fundo nas trevas ressurge um novo homem (ops, um novo Hobbit). Ele retorna para seu lar, porém nunca mais será o mesmo, pois ele contemplou a verdade fora do estreito círculo do si mesmo.

Mas, não devemos esquecer que isso tudo só foi possível por que existe uma Providência Divina que esteve ao lado do Sr. Bolseiro todo o momento. Nas palavras de Gandalf: "Você não supõe que todas as suas aventuras e escapadas foram guiadas por mera sorte, só para seu próprio benefício, supõe?"

O elemento da Providência surge aqui para dizer que todo nosso processo de ascese depende, em última instância, da vontade Divina. "Os seus discípulos, ouvindo isto, admiraram-se muito, dizendo: Quem poderá pois salvar-se? E Jesus, olhando para eles, disse-lhes: Aos homens é isso impossível, mas a Deus tudo é possível." (Mt, 19, 25-26)





terça-feira, 2 de janeiro de 2018

O absurdo em Dostoiévski: uma abordagem camusiana de Kirílov


"Você finalmente entendeu! Kirillov gritou extasiado. Assim pode ser entendido, se mesmo alguém como você compreende! Você compreende agora que para a salvação de todos é preciso provar este pensamento. Quem vai provar isso? Eu! Não entendo como, até agora, um ateu podia saber que Deus não existe e não se matar ao mesmo tempo. Reconhecer que não há Deus, e ao mesmo tempo, não a reconhecer que você se tornou Deus, é um absurdo, caso contrário, você deve necessariamente se matar. Uma vez que você entende isto, você é o Rei,  você não vai se matar, mas sim, viver na maior glória. Mas, aquele que é o primeiro, deve necessariamente se matar, caso contrário, quem irá começar e provar isso? Sou eu que vou necessariamente me matar, a fim dar início e provar isso. Deus está contra a minha vontade, e eu sou infeliz porque é o meu dever de proclamar a vontade própria. Todo mundo é infeliz, porque todo mundo tem medo de proclamar a vontade própria. É por isso que o homem tem sido tão infeliz e pobre até hoje, porque ele estava com medo de proclamar o ponto principal da auto-vontade e foi obstinado a viver apenas nas margens, como um adolescente. Estou terrivelmente infeliz, porque eu estou com muito medo. O medo é a maldição do homem ... Mas eu vou proclamar a vontade própria, é meu dever acreditar que eu não acredito. Vou começar, e no final, deixarei aberta a porta. E salvarei.  Apenas esta maneira salvará todos os homens e na próxima geração irá transformá-los fisicamente. Na forma física presente, tanto quanto eu tenho pensado, não há possibilidade para o homem sem o seu antigo Deus.  Por três anos tenho buscando o atributo da minha divindade, e descobri-lo: o atributo da minha divindade é – a vontade própria  Isso é tudo, desta maneira posso demonstrar a questão principal de minha insubordinação e mina nova assustadora liberdade. Por isso é muito assustador. Me matarei para mostrar provar minha insubordinação e a minha nova assustadora liberdade ".


- Fiódor Dostoiévski, Os Demônios



Albert Camus (1913-1960), escreveu vários ensaios cuja temática central era a noção do que denominou de absurdo. Em seu ensaio intitulado “O mito de Sísifo”, Camus elabora e descreve[1] filosoficamente tal conceito, ao passo que em seus romances, como por exemplo “O Estrangeiro”, o absurdo é encarnado em seu protagonista Mersault.
Fiodor Dostoiévski (1821-1881), teve grande influência no pensamento camusiano. Seus personagens encarnam dramas existenciais complicadíssimos e dentro deles questões como a existência de Deus, a imortalidade da alma, o suicídio lógico ganham um vigor terrível. É sobre esses temas que Camus irá se debruçar ao escrever seu ensaio sobre o absurdo.
Toda obra de Camus gira em torna da noção de absurdo. Especialmente em “O mito de Sísifo”, o autor destrincha esse conceito que deve ser descrito com detalhes. Não se trata do uso comum que essa palavra adquiriu como sendo algo destituído de regras ou de racionalidade. Absurdo é a constatação de uma desarmonia entre a maravilha que esse mundo nos apresenta e sua total indiferença para com o homem. É quando o humano se dá conta de que a vida não possui um sentido mais profundo a ser desvelado, ou quando observa que a mesma não possui um significado.
O sentimento do absurdo consiste no divórcio entre o homem e o mundo, isto é, a avidez humana em buscar um significado e a total indiferença que o mundo apresenta. Tal sentimento suscita uma questão de suma importância como o suicídio. Se não há sentido na vida, se tudo é redutível a total indiferença, por que não acabar com a própria existência? Camus considera esse problema como central.
Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo.[2]
A resposta encontrada pelo autor é a de que o suicídio é ilegítimo para aqueles que vivem a experiência absurda. O confronto que o homem absurdo deve viver seria finalizado pelo suicídio. Ora, após a experiência do absurdo tornar tudo indiferente, se tal homem resolvesse se matar por não a suportar ele estaria dando uma importância para sua vida e isto entraria em contradição com sua experiência. É, portanto, ilógico, do ponto de vista da lógica absurda, o suicídio.
A lógica não pode encontrar satisfação numa atitude que deixa perceber que o assassinato ora é possível, ora impossível. Isso porque a análise absurda, após ter tornado no mínimo indiferente o ato de matar, na mais importante de suas conseqüências, acaba por condená-lo. A conclusão última do raciocínio absurdo é, na verdade, a rejeição do suicídio e a manutenção desse confronto desesperado entre a interrogação humana e o silencio do mundo. O suicídio significaria o fim desse confronto. (...) Tal conclusão, segundo ele, seria fuga ou liberação. Mas fica claro que, ao mesmo tempo, esse raciocínio admite a vida como o único bem necessário porque permite justamente esse confronto (...). Para dizer que a vida é absurda, a consciência tem necessidade de estar viva.[3]
Entretanto, mesmo com a recusa camusiana do suicídio, o autor elenca um personagem literário como o perfeito homem-absurdo. Estamos falando de Kirilov, do romance “Os demônios” de Dostoiévski que se mata para mostrar ao mundo sua descoberta de que Deus não existe. Parece que Kirílov é um personagem intricado que deve ser analisado com mais cautela.
Durante o romance, Kirílov declara que precisa se matar porque “é sua ideia”. Tal ideia surge por sentir que Deus é necessário e é preciso demais que ele exista, contudo, não existe e nem pode existir. Esta constatação, de acordo com o personagem, é suficiente para pôr fim à sua vida. Não se trata de uma vingança metafísica, mas, numa linguagem camusiana, uma revolta.
Ele quer se matar porque tal ato designa sua maior liberdade: “Vou me matar para afirmar a minha maior insubordinação, a minha nova e terrível liberdade”. Seu raciocínio segue uma lógica absurda: se Deus não existe, Kirílov é deus; se Deus não existe, Kirílov deve se matar; portanto, deve se matar para virar deus. A questão gira em torna de reconduzir a divindade à terra. Pois, se Deus não existe eu sou deus, significa que não sirvo a um imortal, portanto, sou livre, sou deus.
Tanto para Nietzche quanto para Kirílov, matar Deus é tornar-se deus, isto é, realizar a vida eterna de que falam os Evangelhos[4]. Essa inversão de ideias – quando comparadas com as dos Evangelhos – pode suscitar uma distinção entre a figura do Cristo (deus-homem) e a de Kirílov (homem-deus). Todavia, o próprio personagem diz que Cristo encarnou o absurdo, foi ludibriado pela natureza. “As leis da natureza fizeram Cristo viver no meio da mentira e morrer por uma mentira”. Portanto, existe mais uma anexação entre essas duas figuras do que uma distinção. E, por isso, Kirilov deve morrer para mostrar aos homens a verdade sobre a existência.
Finalmente aqui chega-se no porque Camus aceita o suicídio de Kirílov. Como este deve morrer para mostrar o caminho da salvação, deve ser o primogênito da nova era de homens e, por isso, tornar-se o redentor da humanidade. É, portanto, um suicídio pedagógico.
O tiro da pistola de Kirílov será o sinal da última revolução. Não é, assim, o desespero que o impele à morte, mas o amor ao próximo como a si mesmo. Antes de encerrar com sangue um indizível aventura espiritual, Kirílov tem uma palavra tão velha quanto o sofrimento dos homens: “Está tudo bem.”[5]

Dostoiévski versus Camus
A obra de Dostoiévski é marcada pelo sentimento que Camus denominou de absurdo. Seus personagens mais evidentes passam por inúmeros conflitos existenciais, geralmente marcados pela inexistência de Deus e pelo niilismo. Desde a ironia demoníaca de Stavróguin até a constatação miserável e preocupante do “tudo é permitido” de Ivã Karamázov, Dostoiévski aborda com profunda sensibilidade o absurdo.
Entretanto, apesar da profunda análise sobre a condição humana e a ausência de sentido, Dostoiévski busca uma solução para o problema que o absurdo impõe. Como recuperar a esperança de um significado para a vida após ter experimentado a mística absurda? A fé na imortalidade da alma. “Se a fé é tão necessária ao ser humano (...), é porque ela é o estado normal da humanidade. Visto que isso acontece, a imortalidade da alma humana existe sem dúvida.” (Dostoiévski em seu Diário de um escritor).
Além disso, segundo Camus, a conclusão de “Os Irmãos Karámazov” expressa pela boca de Aliócha – que afirma indubitavelmente a imortalidade da alma – responde ao problema nevrálgico posto em “Os demônios”. Assim, Stavróguin, Kirílov e até mesmo Ivã Karamázov são vencidos por este salto de fé[6].
Torna-se necessário dizer que para Camus qualquer busca por uma recuperação da esperança, uma explicação que liberte o homem do absurdo ou algo que extrapole a mera descrição do problema absurdo é um salto de fé. Salto esse que ele quer abolir por completo, mostrando aos homens que a experiência absurda é a própria condição humana por excelência. É por isso que Dostoiévski não é considerado por ele um autor absurdo, mas um autor que apresenta o problema absurdo[7].

Reflexões das consequências absurdas
Ainda analisando o caso Kirílov, pode-se traçar algumas consequências que suas ideias geraram. Como dito anteriormente, o suicídio deste personagem é algo messiânico, serve para mostrar aos demais as verdades absurdas. O próprio Camus diz um pouco algumas consequências deste feito:
Stavróguin e Ivã karamázov experimentaram na vida prática o exercício de verdades absurdas. São eles que a morte de Kirílov liberta. Tentam ser czares. Stavróguin leva uma vida “irônica”, sabe-se bem qual. Faz-se erguer o ódio em torno dele. E, no entanto, a palavra-chave desse personagem está em sua carta de despedida: “Eu não pude detestar nada.” É czar na indiferença.[8]
Não somente o suicídio de Kirílov liberta esses demônios, como sua vida até o momento derradeiro também o faz. Segundo uma análise de Soares da Costa[9] em seu blog[10], as atrocidades cometidas pelo grupo dos cinco em “Os demônios” têm o respaldo de Kirilov.
A justificativa para essa afirmação é que Kirilov aceita assinar uma carta escrita por Verkhonvski assumindo a responsabilidade do futuro assassinato do jovem Chatov. Nada melhor do que o “homem novo” – representado por Kirilov – para dar o aval apriorístico da destruição que Verkhonvski simboliza. Em outras palavras, é sob esse espírito da negação – de negar a existência de Deus, a imortalidade da alma, os valores – que a revolução emergirá. E, por mais que Kirilov não seja a causa eficiente do homicídio dos vários “Chatovs” que irão surgir, certamente é a causa final, pois é para lá que a humanidade irá caminhar: na indiferença total.

Considerações Finais
O tema do absurdo posto por Camus levanta sérias reflexões sobre a existência humana. E, mesmo que o suicídio tenha sido descartado por ele – como uma possível consequência lógica do absurdo –, o personagem doistoievskiano Kirilov foi tido como um homem-absurdo por excelência. Viu-se o motivo para que Camus aceitasse o suicídio kiriloviano. Mas, mesmo assim, algumas consequências funestas advindas da experiência absurda foram elencadas e uma questão se põe ao leitor: após a exposição do absurdo e doo salto, qual posição escolher: Ficar com Camus e admitir o absurdo como condição humana inevitável ou com Dostoiévski e aceitar a fé como tal condição? Ser Aliócha e estar convicto da imortalidade da alma ou Merseaut e viver a “experiência mística” da total indiferença?

Referências
CAMUS, Albert. O homem revoltado. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1999.
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989.
COSTA, Rogério Soares. Dostoievski: Kirilov, Verkhovenski e o espírito da negação disponível em http://oleniski.blogspot.com.br/2011/10/dostoievski-kirilov-verkhovenski-e-o.html , acesso em 28/12/2017.
DOSTOIEVSKI, Fiodor. Os irmãos Karamazov. São Paulo: Martin Claret, 2003.
DOSTOIEVSKI, Fiodor. Os Demônios. São Paulo: Editora 34, 2013.
FONSECA, Ludmila Carvalho. O homem extraordinário de Fiodor Dostoievski e o homem revoltado de Abert Camus. Dissertação de Mestrado. Brasília, 2010.


[1] É importante ressaltar que Camus não busca uma explicação para o absurdo, mas uma descrição. O absurdo para o autor impele o homem a não mais buscar explicações para a realidade, visto que não existe um sentido oculto no mundo. Portanto, o homem-absurdo quando cria algo só o cria para descrever um dado da realidade, sem pretensões de caráter explicativo.
Para uma compreensão maior sobre a criação absurda, vide o capítulo “A criação absurda” em “O mito de Sísifo”.
[2] CAMUS (1989), p. 23.
[3] CAMUS (1999), p. 16-17.
[4] CAMUS (1989), P. 63.
[5] CAMUS (1989), p. 64.
[6] CAMUS (1989), p. 65.
[7] CAMUS (1989), p.66.
[8] Id, p. 64.
[9] Rogério Soares da Costa. Professor adjunto do Departamento de Filosofia da UERJ e do Departamento de Filosofia da PUC-Rio. Leciona Epistemologia, Filosofia da Ciência, Filosofia da Natureza, Metafísica e Filosofia da Religião.
[10] http://oleniski.blogspot.com.br , acesso em 28/12/2017.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Sherlock Holmes e o raciocínio dedutivo




"De uma gota d'água, (...), um lógico poderia inferir a possibilidade de um Atlântico ou um Niágora, sem ter visto ou ouvido falar de qualquer dos dois."

 - trecho de um artigo escrito por Sherlock Holmes in "Um estudo em vermelho"



"Holmes" é o personagem mais famoso do escritor britânico Sir Arthur Conan Doyle. Tal personagem ganhou fama entre seus leitores por ser um detetive diferente. Sendo extremamente observador e portador de uma extraordinária memória, Sherlock conseguia juntar os detalhes - muitas vezes detalhes "desprezíveis"- da cena do crime, aglutiná-los e formular uma hipótese que muitas vezes era corroborada com os fatos posteriores.

Muito influenciado pelo conceito de ciência de sua época, sir Conan Doyle faz algumas asserções bem típicas dos empiristas mais radicais. Inúmeras vezes em seu livro, o protagonista repreende seu fiel companheiro Watson alertando-o que não se deve formular teorias antes dos fatos. Os fatos falam por si mesmos e só depois de os analisar é que deve-se estipular as teorias.

É preciso dizer que tal postura filosófica será alvo de inúmeras críticas - principalmente no século XX - pelos filósofos da ciência. Mas, deixando esse assunto um pouco de lado, podemos já traçar um equívoco lógico do pensamento de Holmes.

Quem leu os livros ou acompanhou as inúmeras séries de televisão, com certeza se deparou com os capítulos que Holmes ensinava Watson sobre seu método. Nos livros, geralmente aparece um capítulo chamado "Ciência dedutiva", indicando que o raciocinar do protagonista provinha da Lógica.

Infelizmente, esse pensamento é errado. Na Lógica - que pode ser sinônimo de raciocínio dedutivo -, a conclusão se segue tautologicamente do conjunto de premissas. Isto equivale a dizer que já nas premissas a conclusão está presente. Um exemplo mais que batido de um raciocínio lógico-dedutivo é:

A: Todos os homens são mortais
B: Sócrates é homem
C:. Sócrates é mortal

Como pode-se ver, a conclusão já estava contida nas premissas, bastando que esta fosse reorganizada e posta na terceira linha do argumento.

Sem entrar em detalhes mais específicos da Lógica formal, a própria ordem das sentenças altera a validade do argumento - isto é, se o argumento permanece válido ou não. No exemplo anterior, trocando a ordem de B com C vemos que a conclusão não se segue das premissas (o fato de Sócrates ser mortal não significa que ele seja homem).

Assim, surge então a pergunta: qual o tipo de raciocínio de nosso querido detetive? A resposta é um raciocínio abdutivo.

Um argumento abdutivo se caracteriza por ser a melhor explicação possível. Então, por exemplo, se eu vejo a calçada molhada, num dia de sol, uma mangueira próxima à ela e uma velhinha varrendo as folhas para a rua, eu infiro que a velhinha estava lavando a calçada e que a molhou com sua mangueira. E é exatamente isto que nosso Holmes faz! Ao analisar cuidadosamente os detalhes da cena do crime, ele junta as peças do quebra-cabeças e tira uma conclusão que seria a melhor explicação possível naquele momento.

Todavia, o que o nosso querido Sherlock não sabe, é que num raciocínio abdutivo a conclusão não se segue tautologicamente das premissas. Isto se torna um grande problema quando se tem todas as premissas verdadeiras e infere-se a melhor explicação possível, mas esta não é verdadeira factualmente. Para visualizar a problemática deste tipo de pensamento, imagine a seguinte situação:

"Um homem está ao lado de um cadáver que morreu recentemente - os dois estão sozinhos dentro da cozinha do falecido. Com sangue em suas mãos observa-se que ele segura uma faca. Sabe-se também que este mesmo homem era inimigo do falecido."

A melhor explicação que vem em nossas mentes é a de que o homem matou seu rival e foi pego em flagrante. Contudo, o que aconteceu de fato foi que seu rival teve um ataque epilético quando cortava cebola para o jantar. Ao avistar seu vizinho rival sofrendo, por um impulso nobre de sua parte, o homem correu para ajudá-lo... mas era tarde demais.

Como podemos ver, justamente porque as premissas não garantem a verdade tautológica da conclusão, o raciocínio abdutivo se torna extremamente problemático.

Mas será que isso não era tão elementar assim, meu caro Holmes?